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Acústica V: O Guia dos Tipos de Tratamento Acústico

  • Foto do escritor: Matheus Antunes
    Matheus Antunes
  • 29 de set.
  • 4 min de leitura

Nas postagens anteriores, estabelecemos a base da acústica: entender o que é o som, como suas ondas se comportam e a importantíssima relação entre velocidade e pressão. Agora está na hora de abrir a caixa de ferramentas.


Quando falamos em "tratar uma sala", não estamos falando de uma solução única, mas de um conjunto de ferramentas diferentes, cada uma com uma função específica. Usar a ferramenta errada para o problema não só é ineficaz, como pode até piorar a acústica do seu ambiente.


Neste guia, vamos dissecar os principais tipos de tratamento acústico, explicando como funcionam, para que servem, para que não servem, e por quê.

Resumo: Absorção (Painéis Porosos): Converte a energia sonora em calor. É a ferramenta ideal para controlar ecos, excesso de reverberação e reflexões de médias e altas frequências. Difusão: Espalha a energia sonora em múltiplas direções e intensidades. Mantém a naturalidade da sala sem tantos problemas como nas reflexões diretas. Tratamento de Graves (Bass Traps): Ferramentas especializadas ressonantes para controlar as ondas estacionárias de baixa frequência.

1. A Ferramenta Mais Comum: Absorção (Painéis Porosos)


Estes são os painéis que a maioria das pessoas associa ao tratamento acústico. São feitos de materiais fibrosos ou porosos como lã de rocha, lã de vidro ou espuma acústica.

  • Como Funciona? Eles são absorvedores de velocidade. Como vimos no post anterior, eles funcionam pela fricção. Quando a onda sonora força as partículas de ar a se moverem através das fibras do painel, a energia cinética (de movimento) é convertida em uma quantidade minúscula de calor, "matando" o som.

  • Para que Serve Efetivamente?

    • Controlar o "Flutter Echo": Aquela repetição metálica rápida que acontece entre paredes paralelas.

    • Reduzir o Tempo de Reverberação (RT60): "Secar" o som de uma sala, tornando-a menos "ecosa" e mais controlada.

    • Tratar os Pontos de Primeira Reflexão: Posicionados nas paredes laterais, teto e parede frontal (attack wall) para absorver as primeiras reflexões dos monitores, garantindo uma audição direta e uma imagem estéreo precisa.

  • Para que NÃO Serve?

    • Isolamento Acústico: Um painel de espuma na parede não vai impedir que o som do seu amplificador vaze para o vizinho. Tratamento acústico controla o som dentro da sala. Isolamento acústico bloqueia a transmissão do som para fora da sala, o que exige massa, desacoplamento e vedação.

    • Absorção de Graves (se o painel for fino): Painéis de 5-10cm de espessura são praticamente invisíveis para as longas ondas das frequências graves. A onda sonora de um grave de 50Hz tem quase 7 metros! Ela passa por um painel fino como se ele não estivesse ali.

2. A Ferramenta da "Naturalidade": Difusão


Difusores são painéis com superfícies irregulares, com blocos ou poços de diferentes profundidades, geralmente feitos de madeira ou plástico denso.


  • Como Funciona? Ao contrário da absorção, a difusão não remove a energia sonora, ela a espalha. Quando uma onda sonora atinge a superfície irregular, ela é refletida em inúmeras direções e com intensidades diferentes. A ideia é tentar igualar a intensidade das frequencias refletidas.

  • Para que Serve Efetivamente?

    • Tratar Reflexões Tardias: São ideais para a parede de trás (back wall) de uma sala de controle. Eles quebram a onda que reflete de volta para o ouvinte, evitando um "eco" direto sem "matar" a energia da sala, ou então para controle de reflexões residuais em outros lugares da sala.

    • Criar uma Sensação de Amplitude: Ao espalhar o som, os difusores fazem com que salas pequenas soem maiores e mais naturais.

    • Manter a "Vida" do Ambiente: Excelentes para salas de gravação onde você quer um som controlado, mas não completamente "seco" ou "morto".

  • Para que NÃO Serve?

    • Resolver Problemas de Graves: Difusores padrão não têm efeito sobre as longas ondas das frequências graves. O tratamento de graves exige ferramentas específicas.

    • Tratar Pontos de Primeira Reflexão: Na maioria dos designs de sala de controle, o objetivo nos pontos de primeira reflexão é eliminar a reflexão, não espalhá-la.

3. O Desafio Principal: Tratamento de Graves

Como as frequências graves (especialmente abaixo de 100 Hz) são o maior problema em salas pequenas, elas exigem ferramentas dedicadas e uma compreensão clara de suas limitações. "Bass Trap" é um termo geral, mas os mecanismos por trás deles são muito diferentes.

Tipo 1: Porosos (Absorção de Velocidade)

  • Como Funciona? São painéis muito espessos (geralmente de 15 a 30cm ou mais) de material poroso (lã de rocha/vidro), posicionados nos cantos da sala. Como vimos, o canto é um local ideal para um material poroso capturar a energia dos graves.

  • Para que Serve Efetivamente? Absorção de graves de banda larga (Broadband). São a solução genérica para a maioria dos home studios, pois controlam de forma competente uma faixa ampla de frequências médias-graves e graves (digamos, de 100 Hz para cima). Eles são cruciais para "limpar" a região que e embola a mixagem.

  • A Limitação Crucial: Como a física comprova, a eficácia de absorvedores porosos cai drasticamente em frequências muito baixas (subgraves, <100 Hz). Para absorver uma onda de 60 Hz de forma eficiente, um painel poroso precisaria ter uma espessura impraticável para a maioria dos ambientes. Portanto, eles são uma ferramenta de controle geral, mas não a solução mais eficaz para ressonâncias de subgraves específicas.

Tipo 2: Ressonantes (Absorção de Pressão)

  • Como Funciona? Aqui entramos na artilharia pesada do tratamento de graves. Estes são dispositivos "sintonizados", como os Ressonadores de Helmholtz ou Absorvedores de Membrana. Eles usam a pressão da onda sonora para ressoar em uma frequência alvo, convertendo a energia acústica em vibração mecânica e, subsequentemente, em calor.

  • Para que Serve Efetivamente? Absorção de graves de banda estreita (Narrowband). São ferramentas cirúrgicas, projetadas e construídas para resolver um problema específico de uma ou duas frequências ressonantes ("room modes") que estão causando picos ou vales exagerados no ambiente.

  • A Superioridade para Subgraves: Quando o problema é um subgrave específico (uma nota de baixo que "some" ou outra que "explode" na sala), os ressonadores são, sem dúvida, a ferramenta mais eficaz. Eles atuam diretamente no pico de pressão da onda, onde um absorvedor poroso teria pouquíssimo efeito, oferecendo uma absorção muito mais eficiente em um espaço muito menor.

Conclusão

Não existe uma "chave mestre" para o tratamento acústico. Um ambiente com audição precisa é sempre o resultado de uma combinação inteligente destas três ferramentas:

  1. Absorção para domar o eco e as primeiras reflexões.

  2. Difusão para manter a naturalidade e a amplitude.

  3. Bass Traps, especialmente aqueles que tratam pressão, para controlar a 'fundação' da sua acústica.

É isso! Até a próxima.

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