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Ouvido Humano

  • Foto do escritor: Matheus Antunes
    Matheus Antunes
  • 3 de nov.
  • 4 min de leitura

No post anterior falei sobre Decibel e como a relação matemática entre duas grandezas é facilitada pela escala. Muitas vezes escrevi o termo “percepção” para me referir a como efetivamente o ouvido humano ouve diferentes intensidades ou frequências. Agora, vamos dissecar exatamente o que essa 'percepção' significa, explorando a biologia por trás de como ouvimos.


Antes de qualquer coisa, vale ressaltar que não sou, de forma alguma, um especialista em audiologia. O conhecimento sobre o funcionamento do ouvido humano e a forma como o cérebro processa o som é um campo de estudo profundo. Praticamente tudo que aprendi e apresentei neste texto foi derivado do meu estudo da obra "Mastering Audio: The Art and the Science" de Bob Katz. O que compartilho aqui é a minha interpretação e o que absorvi dessa fonte incrível que considero uma leitura essencial para qualquer profissional de áudio.



Como Ouvimos


Compreender como o som é processado pelo nosso sistema auditivo e interpretado pelo cérebro é fundamental para quem trabalha com áudio, pois não se trata apenas de física, mas de biologia e psicologia da percepção. A audição é um processo complexo que transforma ondas de pressão mecânicas em impulsos elétricos, que o cérebro decodifica em experiências sonoras.


A Captação e Amplificação Mecânica


Tudo começa no ouvido externo, composto pela orelha (pavilhão auricular) e pelo canal auditivo. A orelha funciona como um funil e um refletor, otimizado para captar ondas sonoras e direcioná-las para o canal, enquanto sua forma complexa nos ajuda a identificar a direção do som. O canal auditivo, por sua vez, amplifica certas frequências, especialmente entre 2 kHz e 5 kHz, o que é crucial para a inteligibilidade da fala. Ao final do canal, as ondas sonoras fazem o tímpano vibrar. Essas vibrações são transmitidas ao ouvido médio, uma cadeia de três pequenos ossos (martelo, bigorna e estribo) que atuam como um sistema de alavancas. Eles amplificam a força das vibrações, uma etapa vital, pois precisam mover o líquido denso do próximo estágio, o ouvido interno.



A Análise de Frequência no Ouvido Interno


O estribo está conectado à cóclea, a estrutura em forma de caracol do ouvido interno. As vibrações do estribo criam ondas de pressão nesse líquido. Dentro da cóclea repousa a membrana basilar, a parte mais importante para a análise de frequência. Diferentes frequências causam vibrações máximas em diferentes pontos desta membrana: frequências altas ressoam na base, enquanto as baixas ressoam no ápice. Sobre esta membrana estão as células ciliadas, os verdadeiros transdutores elétricos. Quando a membrana vibra, as células ciliadas se dobram, gerando impulsos elétricos que são enviados ao nervo auditivo.


O Processamento Cerebral e o Conceito de Recrutamento


O nervo auditivo transporta esses impulsos para o cérebro, onde o processamento sofisticado ocorre. O sinal passa pelo tronco cerebral, que analisa a localização, e pelo tálamo, que o direciona, até chegar ao córtex auditivo, onde o som é verdadeiramente interpretado. É aqui que distinguimos fala de música e identificamos timbres.


O cérebro não processa o som como um microfone; ele o interpreta ativamente. A forma como o volume é codificado é um exemplo disso. A percepção de volume não é determinada apenas pela taxa de disparo de um neurônio, mas crucialmente pela quantidade de neurônios ativados, um conceito conhecido como "recrutamento".


Os neurônios do nervo auditivo disparam de forma "tudo ou nada", um princípio binário. Para um som muito fraco, apenas um grupo muito pequeno de células ciliadas no ponto exato da frequência vibra, ativando poucos neurônios. O cérebro interpreta isso como "som fraco". No entanto, para um som muito forte, a vibração na membrana basilar é tão intensa que ela "espalha" e "borra" para os lados, ativando células vizinhas que normalmente respondem a outras frequências. O cérebro agora recebe uma avalanche de sinais de uma grande quantidade de neurônios e interpreta essa atividade neural massiva como "som muito alto".


É essa resposta combinada de taxa e recrutamento, que é logarítmica, que explica por que usamos a escala Decibel. Esse fenômeno também é a base fisiológica para o "mascaramento", onde um som alto recruta tantas células que esconde sons mais fracos em frequências próximas. Da mesma forma, ele explica as Curvas de Fletcher-Munson, pois em volumes altos, o recrutamento de células de graves e agudos faz o som parecer mais "cheio" do que em volumes baixos.


O cérebro também é mestre em criar uma imagem sonora 3D comparando as minúsculas diferenças de tempo e intensidade entre os dois ouvidos, além de filtrar ruídos irrelevantes para focar no que é importante. Essa complexidade toda nos mostra que nossa percepção auditiva é um analisador incrivelmente sofisticado, e é por isso que nosso trabalho em áudio deve sempre considerar como esse sistema biológico e neural complexo irá interpretar o som.



Conclusão


O sistema auditivo humano é muito mais do que um simples transdutor passivo, como um microfone. É um processador ativo, complexo e profundamente não-linear, que interpreta, filtra e, em essência, constrói a realidade sonora que percebemos. A jornada do som não termina no tímpano, ela apenas começa, passando por uma série de transformações mecânicas, hidráulicas e neurais.


Para o profissional de áudio, essa compreensão é a diferença entre ser um técnico de equipamento e ser um engenheiro de som. O seu verdadeiro trabalho não é apenas manipular Volts (dBu) ou bits (dBFS); é criar um estímulo que "converse" de forma eficaz com esse sistema biológico.


Quando você equaliza um bumbo para que ele não mascare o baixo, você está trabalhando diretamente contra o fenômeno do "recrutamento" neural. Quando você verifica sua mixagem em volumes baixos e percebe que os graves e agudos desapareceram, você está testemunhando as Curvas de Fletcher-Munson em ação, ditadas pela sensibilidade variável das células ciliadas.


Cada ferramenta que usamos, da compressão ao panning estéreo, é, em última análise, uma forma de otimizar o sinal para a maneira como o cérebro decodifica a altura, a intensidade e o espaço. O seu console ou sua DAW são apenas a interface. O seu verdadeiro destino, o instrumento final que você está "tocando", é o sistema perceptivo do ouvinte.

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